Faz uns dois meses já... Quinta-feira, dia 16 de setembro de 2010. Sei a data porque logo após o ocorrido rascunhei umas cinco linhas, mas parei.
Vamos ao fato de hoje.
Numa rápida parada para comprar algo pra comer em frente à farmácia. Uma daquelas cenas que se passa numa fração de segundos.
No carro, olhei para frente da farmácia. Havia um menino. Ele dormia – era negro – no bicicletário, no chão. Eu ainda estava no carro. Próximo a mim passou uma senhora com uma criança. Feito os cálculos e proporções, ela deveria ter uns 55 anos e a neta uns 7. É, eu acho que era neta.
A menininha passou pela farmácia olhando fixamente para o mendigo. É, era um mendigo. Como diz Gabriel, o Pensador: O resto do Mundo.
A vó, vendo que a menina olhara atentamente. Não hesitou: “-Olha! Ta vendo! Não quis estudar! Isso que acontece!”
Então... É assim que o mundo nos cria, que a sociedade nos forma. Seres desiguais. Desigualdade essa naturalizada de tal maneira que aprendemos e acreditamos cegamente que qualquer sucesso, vitória ou ascensão na vida, acontece unicamente pelo esforço individual de cada um. A derrota, a não-conquista e o fracasso, ocorrem somente para quem não se esforçou o bastante. Somos assim. Dividimos o mundo assim: entre os que merecem e os que não merecem. Entre os que se esforçaram e os que não se esforçaram.
Acreditamos que toda a desigualdade que existe aqui, é proveniente apenas da falta de esforço dos pobres, pobres coitados. Pensamos assim, e ensinamos assim pros nossos filhos. Todos ensinam. E eles aprendem. Aprendem a acreditar no mérito individual e - se bem sucedidos - aprendem que os outros são fracassados. E, os supostos fracassados, aprendem a mesma coisa, a sua condição de fracassados.
Não percebemos que tudo isso é fruto de um sistema. Em que a existência da desigualdade social é o motor dele.
Nos acostumamos a competir uns com os outros. Aprendemos a competição de mercado. É tudo normal. Aceitamos ser avaliados pelo nosso desempenho, onde somente poucos são bons. Podemos ter 20 pessoas capacitadas, mas somente 2 terão a vaga de chefia e aumento salarial. Temos 80 mil querendo entrar na UFPA, mas somente 4 mil vão entrar. E os 76 mil restantes? Foda-se. É isso que o sistema faz com a gente. Foda-se! São fracassados! Não se esforçaram o bastante! Se tivessem estudado, conseguiriam. A gente pensa assim. Pense agora nos 60 milhões de jovens no País...
E nós, o que fazemos? Aceitamos o sistema. Para nós, o mendigo da calçada da farmácia não quis estudar. É um vagabundo. Um cheira-cola. Não quis estudar.
E o pior, é que grande parte da sociedade chama todos os políticos de ladrão e que todos são iguais. Não percebem que essa mudança social depende das pessoas que estão fazendo a política e das que se omitem de fazer. E o pior, agem como se política fosse feita somente pelos parlamentares. Não se mexem. Não se consideram sujeitos políticos. São inertes. Acomodados. Ao mesmo tempo escravos e cúmplices do sistema.
O sistema capitalista nos faz preocupar com a competição. Em querer ser melhor que os outros. Nos adaptamos burramente à meritocracia. Burramente e cegamente. Nos fazemos escravos e não percebemos que a luta do dia-a-dia não é aquela luta pela competição que favoreça a desigualdade, que nos quer uns melhores que os outros. A verdadeira luta é contra a opressão, a exploração, contra o tal do sistema, contra a desigualdade.
Pela paz, pela vida, pela igualdade.
Nairo Bentes