quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Convite: Roda de Conversa

Roda de conversa sobre a "Pedagogia das competências" com a Profª Dra. Lucília Machado

Data: 07/03/2012 às 9h
Local: Sala 12 do PPGED/ICED/UFPA
Realização: Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho e Educação.
Professora Lucília Machado atualmente é coordenadora e professora do Mestrado em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local do Centro Universitário UNA (Belo Horizonte, Brasil).
Tem se dedicado às temáticas: 1. políticas, programas e projetos de desenvolvimento, especialmente socioeducacional, com ênfase no mundo do trabalho, mercado de trabalho, ciência, tecnologia, emprego, trabalho, educação, cultura e qualificação profissional; 2. gestão pública e social, especialmente educacional, com foco na qualidade social, demandas e ofertas, legislação, decisões, acompanhamento e avaliação; 3. desenvolvimento, apropriação e utilização de tecnologias sociais e educacionais; 4. pedagogia do trabalho, saberes do trabalho e saberes profissionais; 5. inovações na educação básica, profissional e superior, com ênfase em escola unitária, educação integral e politécnica, organização do trabalho escolar, trabalho e formação de professores, qualificação de trabalhadores, tecnologia e educação.(fonte: http://lattes.cnpq.br/027588883014451)

domingo, 19 de fevereiro de 2012

"Todo mundo odeia" atendente de telemarketing.


Tem gente que vive viajando, eu já viajei algumas vezes. Em uma dessas viagens pelas beiradas de São Paulo para fazer um Curso de Formação Marxista – daqueles que a gente fica confinado 15 dias num Hotel-fazenda e não tem nenhum diazinho de folga pra tomar um Chopp da Brahma na esquina da Ipiranga com a São João – eu, sem ter o que fazer, além de estudar as teorias de Marx, bater-papo e tomar cerveja, comprei um DVD de um velho cabeça-branca e bigode branco que está em todos esses congressos em que a vanguarda dos trabalhadores brasileiros se organiza, acho que é Gilberto o nome dele.
O DVD continha vinte curta metragens de variadas temáticas, tinha de Rap, Samba e Gravidez na adolescência, entre os variados temas, o que mais me chamou atenção foi “A História Secreta do Telemarketing” o filme é “muito bom”, só vocês vendo.



Pois bem, depois de ver este filme, que, na verdade, assisti dois anos depois de ter comprado o tal DVD do velho Gilberto, lembrei de um dos meus diálogos históricos com as atendentes de telemarketing.
Lembram-se daquela promoção da TIM na qual você ganhava bônus de 500 minutos por mês para falar de TIM pra TIM? Pois então, tinha uma outra, no mesmo período, na qual o custo da ligação pra qualquer TIM era cobrado por apenas R$ 0,07 o minuto. Como tínhamos que optar por uma das duas promoções, eu optei pela segunda, e aí, recebi uma ligação da atendente da TIM...
- Boa tarde, Senhor!
- Boa tarde.
- Meu nome é Valdirene, eu falo em nome da Operadora TIM, você sem fronteiras. O Senhor pode falar agora ou está ocupado?
- Posso falar, seja breve.
- O Senhor é usuário do telefone 81**-****?
- Sim.
- Está registrado aqui em nossos sistemas que você ainda não aderiu a promoção de 500 minutos grátis por mês de TIM pra TIM.
- É, eu não quero essa promoção, eu tenho outra.
- Sim, Senhor. Estou vendo em nossos sistemas que o Senhor no momento está com a nossa promoção antiga ativada, em que paga sete centavos por minuto de TIM pra TIM.
- Sim, eu quero continuar com essa. É só isso?
- Sim, Senhor. Mas nós temos uma promoção melhor ainda. Ao invés de você pagar sete centavos por minuto você vai ligar de graça!!! Você pode aderir agora mesmo essa promoção, deseja fazer isso agora??

- Não, eu quero continuar com a promoção de sete centavos...
- Mas o senhor prefere pagar sete centavos o minuto do que ligar de graça por QUINHENTOS minutos??
- Sim, prefiro.
- Senhor, esta é uma oportunidade única que a Operadora TIM sem fronteiras está oportunizando pra você!!
- Mas eu prefiro pagar sete centavos por minuto. Preste atenção, se eu tiver 500 minutos grátis, os minutos que excederem esses 500 minutos eu vou pagar R$ 1,25 por cada minuto. Se você ver a minha conta da TIM, você vai perceber que eu utilizo, em média, 1000 minutos.
Faça as contas. Se eu tiver a promoção de sete centavos o minuto, e utilizar 1000 minutos, vou pagar 0,07x1000, que vai dar R$70,00. Agora, se eu tiver a promoção de 500 minutos grátis por mês e utilizar 1000 minutos, não vou pagar os 500 minutos, e os outros 500 minutos vou pagar R$ 1,25 cada minuto. Ou seja, 1,25x500, que vai dar R$ 625,00.
Observe, permanecendo na promoção atual, eu pago setenta reais, e se eu passar para a promoção super-vantajosa que você está me oferecendo, eu vou pagar seiscentos e vinte e cinco reais. Entendeu?
- Sim, Senhor. Entendi. A TIM agradece a sua ligação...


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

É.... 2012 tá Chegando!!!!

            Olá caros e saudosos leitores, primeira postagem de 2012 depois de mais de 3 meses de paralização neste blog.
          Por falar em paralização, o título desta postagem não é em virtude de ainda não termos tido nenhuma postagem desde o reveillon  de 2011-2012, mas sim, por que, embora hoje seja o décimo quarto dia do segundo mês do ano, ainda estamos no findar do ano letivo de 2011 nas Escolas Públicas Estaduais da capital paraense.
             Claro que todos sabem aqui, que isso ocorre em consequência do atraso do calendário escolar provocado por sucessivas greves, extremamente necessárias, que ocorreram na Educação pública nos últimos quatro anos.
             Porém, o calendário pós-greve ocorre de maneira diferenciada nas escolas paraenses, isso em virtude das USE's (Unidade SEDUC na Escola) cada uma agir como se fosse uma Secretaria de Educação diferente, algumas mandando as escolas adiantarem suas avaliações, e outras tentando cumprir 200 dias letivos. Essa diferenciação de organização, ocorre inclusive se compararmos duas escolas coordenadas pela mesma USE e que sempre entraram em greve no mesmo período.
            Por fim, desculpe o período sem postagem caríssimos leitores, peço a todos que divulguem o blog.

       Um abraço especial para os alunos das Escolas Raymundo Vianna, Acy de Barros e Honorato Filgueiras.

          Ah! "Diferenciação de organização" é um belo eufemismo para Desorganização.

Até mais!

Prof. Nairo Bentes

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Nilson falou: “o STF não disse nada, se é pra pagar o piso agora, ou daqui a pouco.”


Quem vem acompanhando os noticiários nas TVs locais, está ligado, só se fala nisso: “a greve dos professores prejudica milhares de alunos em todo o Estado”.
Nós, professores, quando ouvimos uma notícia dessas, chegamos até a nos sentir responsabilizados pelo prejuízo que é acarretado aos nossos alunos. Porém, quando aparece um cara-de-pau como o Senhor Deputado Secretário de Promoção Social Nilson Pinto de Oliveira, falando na televisão provocações à categoria dos profissionais da Educação, temos certeza que os únicos responsáveis pelo prejuízo causado aos alunos de escolas públicas são estes senhores que hoje administram o Governo do Estado do Pará, Simão Jatene e quadrilha Ltda.
Hoje, o tal do Nilson Pinto foi no Bom dia Pará. Quando perguntado pelo jornalista da TV Liberal, o Porquê do Governo e a SEDUC desrespeitarem o pagamento do piso, já que  se trata de uma lei federal sancionada em 2008. O então secretário, respondeu dizendo: “a Lei é de 2008, mas alguns Estados entraram com uma ação de inconstitucionalidade, e só em agosto de 2011 que o STF publicou um acordão dizendo que a lei é constitucional. Mas o STF não disse nada, se é pra pagar o piso agora, ou daqui a pouco.”
É, caros leitores, ele disse isso: “o STF não disse nada, se  é pra pagar o piso agora, ou daqui a pouco.”
“Se é pra pagar o piso agora, ou daqui a pouco”
P*##@! Não sei nem o que eu te digo Nilson Pinto de Oliveira!!!
Vai ler um pouco da lei, que o senhor e o seu chefe estão descumprindo, e leia seu Artigo 8o o qual diz: “Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.” E depois fala, se é pra pagar agora ou daqui a pouco!
Foi muito autocontrole pra não escrever várias palavras de baixo calão aqui pra esse cara!!!
Amanhã tem um grande ato público com concentração às 9h no trevo do Satélite partindo em caminhada em direção à SEDUC.

Todos lá!
Grande abraço!!!

Prof. Nairo Bentes

P.S: Tuítem para o secretário a opinião de vocês: @DepNilsonPinto

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Brasileiro(*)





Mais um dia, mais uma manchete. Ao sair de casa para trabalhar, Zaqueu pegou um jornal na banca de revistas da esquina e, sem o mínimo espanto, leu a primeira página, que estampava mais um caso de corrupção. Ministro fulano é acusado de suborno, presidente nega conhecimento. Deputado  diz que não tem conta bancária no exterior, senador implicado em esquema de fraudes em licitação. Tanto faz o que era. No outro dia, esses mesmos jornais estão com outras matérias e os anteriores estão forrando gaiolas, embrulhando peixes ou servindo de recortes para trabalhos escolares, o barulho é efêmero e a opinião pública, volátil. Daqui a alguns anos todos voltam, eleitos e reeleitos. Somos cordiais, cristãos, perdoamos, aceitamos, comungamos, elegemos, trabalhamos, desenvolvemos, lemos, amamos e vivemos, absortos nos nossos infernos, públicos e privados, altruisticamente egoístas.

Zaqueu tomou o ônibus na quinta quadra do Setor Sudoeste e encaminhou-se para a Esplanada, onde trabalhava no  Ministério dos Transportes como analista administrativo. Entrou no prédio, bateu o ponto com seu polegar. Pensou o que pensava todos os dias, Como alguém que não tivesse as mãos poderia bater aquele ponto biométrico? Riu sozinho da observação, como sempre, pois que valia tem alguém que não tem as mãos para o serviço público? Como vai carimbar, assinar, registrar, segurar as xícaras que substituíram os copinhos de café? Chegou ainda sorrindo à sua mesa, no segundo andar, o que lhe valeu a simpatia dos seus colegas. Sempre apreciamos pessoas felizes, alegres, radiantes, simpáticas.

Trabalhava com processos administrativos. Basta que se diga isso, pois tudo na administração pública compõe processos, desde a aquisição de papel higiênico até a concessão de passagens para os assessores do ministro irem para Fortaleza participar de eventos nos resorts cearenses. Uma sucessão de papéis, numerados e rubricados, contendo atas, editais, nomes, atestos, carimbos e mais uma extensa lista de abstrações documentadas, reunidas num volume organizado criteriosamente, com o pretexto de atribuir lisura e legalidade aos atos administrativos. Qualquer desavisado, selecionado às escuras numa escola, pública ou privada, que botasse a vista no conteúdo das caixas de plástico que repousam na mesa de Zaqueu não lhes atribuiria nenhuma dessas divinas qualidades. Diria apenas que é uma pilha de papel, apropriada para os mesmos usos dos jornais de ontem.

Para Zaqueu não era diferente. Se botassem um baú cheio de merda no lugar daqueles papéis mofentos a sua frente, limitaria-se a colocar luvas e máscara e prosseguiria com o manuseio, esperando, como sempre, o primeiro dia útil de cada mês, único dia em que acreditava no que estava fazendo. O pagamento e a estabilidade num país como o nosso, tudo isto conta muito. E além do que, não é tão ruim assim trabalhar sete horas por dia revirando documentos, revisando, listando itens essenciais e supérfluos. Poderia ser pior, afinal, há pessoas que realmente lidam com baús de merda. Este pensamento sempre animava Zaqueu, como uma piada que lembramos sozinhos e não dividimos com os outros, receosos que a graça se perca.

Hora do almoço. Zaqueu desceu os dois andares pela escada e, chegando ao térreo, foi ao banheiro. Esperou que um outro servidor público saísse e logo depois entrou para o sanitário, fechando  o trinco da porta. Próximo ao chão, deslocou um azulejo que estava solto, revelando um buraco que continha uma caixa de ferramentas, que puxou para fora, botando em seguida o azulejo de volta. Rapidamente saiu à rua, que a esta hora estava apinhada de funcionários públicos, pegando seus carros ou comendo lá mesmo, em carrinhos que vendem comida. Pegou um táxi e disse ao motorista que o deixasse no Memorial JK.

Conversou animadamente com o taxista sobre futebol, era quarta-feira e o time para o qual torciam iria jogar contra o líder do campeonato naquela altura. Chegaram. Demorou um pouco pois era quarta-feira, muitos parlamentares e assessores, muitos carros e poucas vias para os mesmos poucos lugares. Zaqueu pagou trinta reais e disse para o outro ficar com o troco, um e vinte e cinco, prontamente aceitos pelo taxista. Desceu ansiosamente do carro e pôs-se a caminhar e já ia a uns duzentos metros quando sentiu uma mão pesada no seu ombro. Assustado virou-se e viu que era o motorista com a caixa de ferramentas: havia esquecido no carro. Agradeceu e quis até lhe dar mais dinheiro, mas, quando ia pegar a carteira, desistiu. Deixou na conta da gentileza e ambos seguiram seus caminhos.

Zaqueu caminhou pelo imenso canteiro, de mato ralo e algumas árvores, enquanto os carros seguiam pelas veias e artérias da capital. O clima estava quente, mas seco e soprava uma agradável brisa. Depois de ter andado um bom bocado, subiu numa árvore pequena e ficou observando o movimento da via. Sentiu de repente uma grande paz, e foi neste estado que tirou as partes do rifle, que estava desmontado dentro da caixa de ferramentas. Montou cuidadosamente, lustrando as partes com uma flanela laranja e checando cada peça, cano, gatilho, trava. Colocou uma mira de longo alcance na alça e carregou a arma. Apoiou a soleira no ombro direito e observou pela lente. Ele não deve demorar muito, pensou.

Demorou vinte minutos. Na entrada da refinada churrascaria parou um carro importado, alemão, preto. A placa oficial não deixava dúvidas, era muito importante a pessoa que descia do carro, rumo à porta do restaurante. Zaqueu olhou aquela cara, aquele bigode, aqueles anos todos, aquelas manchetes todas, aqueles dias todos. Hoje é diferente, pensou Zaqueu, hoje alguém vai reagir. O senador caminhava lentamente, com seu passo solene de autoridade, cercado de assessores e um segurança que, desacostumado às ameaças, distraidamente falava ao celular. Quando chegou em frente à porta de vidro, que um dos seus asseclas abriu prontamente, parou. Sentiu que esquecia alguma coisa, bateu com as mãos nos bolsos do paletó. Não deve ser nada, pensou, ainda querendo saber o que era. Foi pouco tempo que durou este pensamento porque Zaqueu apertou o gatilho e a bala foi mais rápida que a memória do senador, que já andava um tanto falha, e logo os neurônios do parlamentar decoraram a vitrine da entrada da churrascaria, onde estavam expostas algumas peças de carne bovina sob uma luz forte, simulando fogo.

O tumulto foi generalizado, os seguranças corriam de um lado para o outro sem saber o que fazer, ligaram para polícia, para o exército. As pessoas ilustres, outros parlamentares, empresários reunidos com eles, todos saíram para ver o corpo do velho oligarca quase sem cabeça, estendido na entrada. Os mais afoitos fotografavam, os cinegrafistas amadores filmavam com seus telefones. Zaqueu assistiu à aglomeração, ao furdunço, de longe, ainda trepado na árvore. Quis contemplar por alguns momentos o seu feito. Por alguns segundos, ele se demorou ali, parado, com o espanto estampado no rosto, enquanto segurava o rifle ainda quente do tiro. De súbito, despertou e limpou a arma com a flanela, encaixando-a, junto à caixa, nuns galhos acima de sua cabeça. Desceu quando o trânsito estava já sendo paralisado e as primeiras sirenes já se ouviam, um pouco longe.

Começou a andar rapidamente até a parada de ônibus. Suava muito, mas o calor não deixava espaço para suspeitas. Havia muita gente no ponto e Zaqueu ficou preocupado. Ainda não sabem, não deu tempo, pensava enquanto revia todos os seus atos desde que chegara ao trabalho naquela manhã. Não há motivo para alarde, repetia.

O trânsito andou um pouco e o ônibus chegou. Subiram todos e Zaqueu sentou-se ao lado de um rapaz. Há poucas coisas mais irritantes do que engarrafamentos, ainda mais aquele, que ninguém sabia o que estava provocando, mas já se tinha certeza que era algo de anormal. Começaram a brotar soldados e cabos, correndo de um lado para o outro, brandindo fuzis e recebendo ordens dos sargentos, Cobre aquele lado, O outro, Porra, deixa de ser surdo, cabo Souza!, e outras coisas desesperadas de quem não sabe o que fazer. Estavam abordando todos os transeuntes e logo começaram a revistar os veículos parados no trânsito.

Zaqueu começou a ficar nervoso, aquilo não estava nos seus planos. Não pensou que eles iriam paralisar o tráfego tão cedo, nem que os militares chegariam tão rápido. A rapidez se deu porque havia um destacamento de duzentos homens próximo, voltando do Estádio Mané Garrincha, onde tinham participado de um treinamento com vistas à Copa do Mundo. Naquela altura, o crime já estava nas redes sociais e as autoridades já haviam sido acionadas, movendo toda a geringonça brasileira de segurança. Policiais militares mal treinados, policiais civis corruptos, policiais federais indolentes, forças armadas, pobres e emburrecidas pela Nova República, como garantia de aniquilar seus impulsos golpistas. Não tenho arma e não tenho nada que me incrimine, estou tranquilo, pensava.

Chegou a vez do ônibus em que estava Zaqueu. Entraram dois militares e começaram uma gritaria, Todo mundo calmo!, naquele velho estilo nacional de cooperação compulsória, intimidação amigável. O soldado foi na frente, olhando cada um dos passageiros enquanto segurava baixo seu fuzil. Um cabo cobria o primeiro da entrada. Zaqueu se segurou para não gritar de desespero, manteve o sangue frio e reduziu a sua expressão a um franzir de sobrancelhas, como se dissesse, Que merda é essa?, mas continuava suando muito. O soldado continuava a examinar com os olhos angustiados os passageiros. Uma senhora espirrou e a praça virou-se subitamente e apontou a arma na cara da velha, que começou a passar mal, aumentando o clima de terror, com gritos e choros. Um velho reclamou, Que está acontecendo?. O soldado respondeu, Meu senhor, houve um crime terrível ainda há pouco ali no Setor Hoteleiro Sul, e recebemos ordens de cercar tudo por aqui. Mas o que foi?, o velho questionou novamente. Parece que mataram alguém importante, disse o soldado. Zaqueu estava paralisado de pânico e olhava para fora, evitando encarar os dois. Tudo limpo aí, Amaral?, gritou o cabo. Ao que parece sim, tudo limpo, respondeu o soldado. Saíram do ônibus e comunicaram ao sargento que estava dando ordens em forma de gritaria a um monte de outros militares, revistando veículos em todas as direções. Como assim tudo limpo, porra?! Larguem de ser frescos e voltem àquela porra daquele ônibus e me tragam um suspeito, porra! É ordem, de todo carro tirem um filho da puta!, vociferou o exaltado sargento.

Zaqueu ouviu tudo aquilo com um aperto no coração. Era o fim. O soldado entrou novamente, desta vez com o fuzil ameaçadoramente alto. Tornou a examinar os passageiros. Todos eram velhos, doentes, mulheres, japoneses, obesos demais para terem feito aquilo. Bateu os olhos onde estava sentado Zaqueu e foi até lá. Ao vê-lo se dirigir até onde estava, Zaqueu teve vontade de sair correndo, tomar o fuzil e fazer reféns, mas não conseguia mexer nem as mãos, quanto mais fazer todo este escarcéu. Esperou. Os poucos passos do soldado demoraram uma eternidade e ele se preparou para ser preso, quando seus olhos de repente miraram o rapaz que estava sentado ao seu lado. Tranquilizou-se instantaneamente, baixou a cabeça e até sorriu. Ao chegar, o soldado esbravejou, Vamos levantando!, Como?, respondeu Zaqueu. Não é contigo não, é com este elemento aí. O rapaz tomou um susto com a intimação do soldado, mas levantou-se de pronto, resmungando em voz baixa qualquer coisa. Não era a primeira vez que as ditas autoridades brasileiras davam-lhe este tratamento, era preto e pobre. Como somos cordiais, o rapaz desceu calado e o olhar de Zaqueu acompanhou-o até ele ser recolhido a um caminhão que estava improvisado de camburão, já abarrotado de pobres rapazes pretos.

Dentro do ônibus, Zaqueu era só alívio. Esparramou-se, sorrindo, no banco do ônibus e ficou ainda mais radiante quando ouviu o sargento gritando, Pode desviar esses carros, já estão limpos!, e o veículo começou a se mover. Seu telefone tocou. Era seu chefe, que disse, Zaqueu, nem precisa voltar do almoço, aconteceu uma cagada, ninguém sabe ainda o que foi, mas parece que atiraram no Presidente do Senado, está todo mundo em pânico, Tudo bem, Mendonça, estou no ônibus, está tudo parado por aqui, vou para casa então, Certo, um abração, e desligou.

Mais um brasileiro à solta.

*(Texto excrito por Igor Farias, em colaboração ao blog eu-lírico da tabacaria)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

#ArnaldoJaborRacista?


Ontem, em um longo papo no msn, conversei com um amigo sobre os últimos acontecimentos políticos. Não vou entrar em detalhes da nossa conversa. Foi longa! Ele me disse que as pessoas defensoras de Orlando Silva respondiam com agressividade quando questionadas sobre o suposto desvio de recursos públicos.
É meu amigo. Infelizmente algumas pessoas não conseguem dialogar. Pergunta-se: porque o Orlando saiu mesmo não sendo culpado (segundo ele próprio e o PCdoB)? Resp: Saiu pois, se culpado ou inocente, é melhor que as investigações ocorram sem desgaste do Governo Dilma. É uma estratégia política. Mesmo se sabendo inocente, Orlando e o PCdoB inteiro, sabem que se ele continuasse como ministro só prejudicaria a imagem do Governo perante a sociedade. Ah! E do partido também.
Então, afasta o cara que é melhor. Se ele for inocente... que prove isso aí fora.
Eu estava tuitando numa boa agora, e vi a hastag – é assim que se escreve? hastag #ArnaldoJaborRacista. E fui ver do que se tratava, a fonte que utilizei foi o site do Vermelho na matéria intitulada “Jabor destila racismo contra Orlando e é rechaçado noTwitter”.
Então vi, que além de ter falado mal da UNE e do PCdoB, Jabor proferiu, na Rádio CBN, a expressão: "Amigos ouvintes, finalmente, o Orlando Silva caiu do galho. Depois dessa declaração o comentarista caiu na “boca do Twitter” e o #ArnaldoJaborRacista bombou nas redes sociais!!

Caros leitores, venho lhes dizer, não tenho simpatia alguma por Arnaldo Jabor. Na verdade, às vezes eu até acho ele engraçado, acho até que ele poderia sair do Jornal Nacional e fazer parte do Zorra Total, fazendo uma dupla com a Dilmaquinista. Enfim, também não tenho nada contra o cara.
Porém, ao contrário de muitos, não vi racismo nas palavras dele. A expressão “cada macaco no seu galho” é usada sem fazer referência nenhuma à questão racial, e assim foi a forma como Arnaldo Jabor a usou...
"Égua, Nairo! Estás defendendo o Arnaldo Jabor, cara?"
Não, caros leitores, apenas mostrando meu entendimento. Cada ministro está num galho, e o Orlando Silva caiu do dele. A referência que Jabor fez, foi em analogia ao ditado popular, e não querendo se referir à cor do ministro. Todavia, nesse momento de efervescência política, cada um entende o que é melhor pra retrucar.
Falando sobre racismo, às vezes, a mesma palavra pode ser ou não racista. Vejam como exemplo um amigo falando pro outro:
- Fale meu preto! Como estás?
Em outra situação se o amigo tivesse mordido poderia falar assim:
- Seu preto fedido! Você me paga!
Ou seja, na primeira situação foi usado o termo “preto” sem racismo. Já na segunda situação, há uma dose grande de racismo. Concordam?
Assim o Jabor, tá lá no galho dele, com gente torcendo pra ele cair de lá.
Um grande abraço!
Prof. Nairo Bentes

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Greve, plebiscito, eleições 2012, Educação e PIB, Orlando Silva e PCdoB


É impressionante, mas ultimamente tenho deparado-me com uma imensa hesitação em escrever. Há diversos fatos que eu gostaria de comentar, mas não comento. Na verdade, até escrevo, só que não gosto quando leio. Então não publica-se.
Tenho algo a dizer sobre a greve, sobre o plebiscito de divisão do Estado, sobre as eleições 2012, sobre Educação, sobre a matemática... e o Ministro Orlando Silva.
Então eu vou deixando passar: “Ah! Depois eu escrevo, depois eu escrevo...” Até o tema sair do interesse das pessoas e se resolver, que acabo por não postar no blog.
A greve continua, este é um ponto. Já são trinta dias e nada do governo arredar. Esse ano não tem discussão, quem não paga o piso é fora da lei. Os alunos são prejudicados? Resp: São! Mas a responsabilidade é do Governo Estadual, hoje, tendo sua figura máxima de representação o Simão Jatene.
Sobre a Divisão do Pará, creio que os que defendem que ele continue unido têm mais certeza do que estão falando. É, por enquanto, sobre esse assunto, tô que nem a Dilma durante a campanha de 2010, eu apenas “acho”!
Sobre as eleições 2012, apenas adianto que minha participação política deverá se dar apenas em âmbito majoritário. Edmílson Rodrigues e Jorge Panzera são os pré-candidatos da esquerda que me agradam à priori.
Sobre Educação, além da discussão do PISO NACIONAL, merece referência a campanha pelo 10% do PIB na Educação. Só por curiosidade, antes de discutir sua importância, sua necessidade e nossa luta por essa bandeira, podemos nos indagar como começou essa campanha, na UNE ou na fala de Amanda Gurgel no Domingão do Faustão?
Sobre Matemática, tô devendo postagens na “Área do Aluno” do blog. Vou trabalhar nisso.
E sobre o Orlando Silva...? Bom, caros leitores, não vou postar aqui para fazer uma análise sobre as denúncias, calúnias, provas ou comprovações quaisquer, tampouco para dizer #SouOrlandoSouBrasil ou #OrlandoToContigo. Para ver os pontos de vistas sobre esse assunto acessem o site da VEJA, do VERMELHO, da FOLHA e o BLOG do MIRO. Quando comecei a escrever este texto o Orlando ainda era Ministro, agora não mais.
Sobre essa celeuma, quero apenas fazer uma crítica reflexiva a respeito de um ponto: A revista Veja diz que o PM João Dias é um militante do Partido Comunista do Brasil. O PCdoB diz que ele não é militante do partido, nem sequer filiado, que é um caluniador, e que ele sim, fez mal uso do dinheiro público e deve milhões para a União. O PCdoB entende que João Dias pelas mãos do PIG está causando isso tudo, e admite: ele apenas se filiou para ser candidato em 2006 a deputado distrital, e logo em seguida saiu do partido.
A reflexão que faço é: só é possível a entrada de pessoas dessa índole no PCdoB, como o PM João Dias, em virtude dessa abertura política que o partido vive atualmente. No Brasil todo, inclusive no Pará, existem pessoas que ingressam no Partido Comunista do Brasil, apenas para pleitear uma vaga no parlamento, e aí, caros camaradas, não se pode garantir que todos sejam honestos e de boa índole. Cada um que ingressa com interesses pessoais e eleitoreiros, vêm com seus ideais e com a força particular de sua carne.
Um grande abraço e excelente semana a todos!
Prof. Nairo Bentes

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Com demora, mas em reflexão ao dia 15 de outubro...



Naquele tempo, Jesus subiu a um monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem. Ele os preparava para serem os educadores capazes de transmitir a lição da Boa Nova a todos os homens.

Tomando a palavra, disse-lhes:
- “Em verdade, em verdade vos digo: Felizes os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque eles…”
Pedro o interrompeu:
- Mestre, vamos ter que saber isso de cor?
André perguntou:
- É pra copiar no caderno?
Filipe lamentou-se:
- Esqueci meu papiro!
Bartolomeu quis saber:
- Vai cair na prova?
João levantou a mão:
- Posso ir ao banheiro?
Judas Iscariotes resmungou:
- O que é que a gente vai ganhar com isso?
Judas Tadeu defendeu-se:
- Foi o outro Judas que perguntou!
Tomé questionou:
- Tem uma fórmula pra provar que isso tá certo?
Tiago Maior indagou:
- Vai valer nota?
Tiago Menor reclamou:
- Não ouvi nada, com esse grandão na minha frente.
Simão Zelote gritou, nervoso:
- Mas porque é que não dá logo a resposta e pronto!?
Mateus queixou-se:
- Eu não entendi nada, ninguém entendeu nada!
Um dos fariseus, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada a ninguém, tomou a palavra e dirigiu-se a Jesus, dizendo:
- Isso que o senhor está fazendo é uma aula? Onde está o seu plano de curso e a avaliação diagnóstica? Quais são os objetivos gerais e específicos?
Quais são as suas estratégias para recuperação dos conhecimentos prévios?
Caifás emendou:
- Fez uma programação que inclua os temas transversais e atividades integradoras com outras disciplinas? E os espaços para incluir os parâmetros curriculares gerais? Elaborou os conteúdos conceituais, processuais e atitudinais?
Pilatos, sentado lá no fundão, disse a Jesus:
- Quero ver as avaliações da Provinha Brasil, da Prova Brasil e demais testes e reservo-me o direito de, ao final, aumentar as notas dos seus discípulos para que se cumpram as promessas do Imperador de um ensino de qualidade. Nem pensar em números e estatísticas que coloquem em dúvida a eficácia do nosso projeto.
E vê lá se não vai reprovar alguém! Lembre-se que você ainda não é professor efetivo…
Jesus deu um suspiro profundo, pensou em ir à sinagoga e pedir aposentadoria proporcional aos trinta e três anos. Mas, tendo em vista o fator previdenciário e a regra dos 95, desistiu. Pensou em pegar um empréstimo consignado com Zaqueu, voltar pra Nazaré e montar uma padaria…
Mas olhou de novo a multidão. Eram como ovelhas sem pastor… Seu coração de educador se enterneceu e Ele continuou…

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Quem, melhor que os oprimidos?

“Quem, melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora? Quem sentirá, melhor que eles, os efeitos da opressão? Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade da libertação?

Libertação que não chegará pelo acaso, mas pela práxis de sua busca, pelo conhecimento e reconhecimento da necessidade de lutar por ela.

Luta que, pela finalidade que lhe derem os oprimidos, será um ato de amor, com o qual se oporão ao desamor contido na violência dos opressores, até mesmo quando revestida da falsa generosidade”.

(Paulo Freire)